Vibe Coding: quando programar com IA começa a virar um risco
Por Neves Company

Você descreve uma ideia para uma Inteligência Artificial, recebe centenas de linhas de código em poucos segundos e, aparentemente, tudo funciona. Essa experiência está popularizando uma nova forma de desenvolver software conhecida como Vibe Coding. O problema é que fazer um programa funcionar e construir um software confiável são coisas muito diferentes.
O Vibe Coding representa uma mudança importante na relação entre pessoas e programação. Em vez de escrever cada instrução manualmente, o desenvolvedor descreve o resultado desejado e utiliza modelos de Inteligência Artificial para gerar, modificar e corrigir o código. A produtividade pode aumentar drasticamente. Mas, junto com ela, surge uma pergunta importante: quem realmente entende o software que está sendo construído?
O que é Vibe Coding?
Vibe Coding é uma abordagem de desenvolvimento na qual o programador utiliza linguagem natural para orientar uma Inteligência Artificial durante a criação de software. Em vez de controlar cada detalhe da implementação, o usuário descreve funcionalidades, corrige comportamentos e pede alterações enquanto a IA produz grande parte do código.
A diferença para o desenvolvimento tradicional está principalmente na distribuição do trabalho. O programador passa menos tempo digitando código e mais tempo descrevendo intenções, avaliando resultados e orientando o modelo. Isso reduz significativamente a barreira de entrada para criar aplicações.
O problema começa quando o código funciona
Um dos maiores perigos do Vibe Coding é confundir funcionamento com qualidade. Uma aplicação pode abrir, realizar uma operação e apresentar uma interface aparentemente perfeita enquanto possui problemas estruturais que só aparecem posteriormente.
Código gerado por IA pode conter dependências desnecessárias, funções duplicadas, lógica excessivamente complexa, tratamento inadequado de erros, problemas de performance ou decisões arquiteturais incompatíveis com o restante do sistema. O fato de a aplicação funcionar durante um teste não significa que ela esteja pronta para produção.
1. Código que ninguém consegue explicar
Quando um desenvolvedor aceita grandes blocos de código gerados por IA sem compreender sua lógica, cria-se uma dívida técnica diferente daquela produzida pelo desenvolvimento tradicional. O software pode continuar evoluindo, mas cada alteração passa a depender novamente da interpretação de uma IA ou de tentativa e erro.
Esse problema se torna especialmente grave em sistemas críticos. Se uma equipe não consegue explicar por que determinado componente existe, quais dados ele processa ou quais consequências uma alteração pode causar, a manutenção do sistema se torna progressivamente mais arriscada.
2. Vulnerabilidades podem nascer junto com o código
Segurança é outra área que não pode ser terceirizada completamente para uma IA. Modelos podem gerar autenticação inadequada, validação insuficiente de entradas, exposição acidental de informações, configurações inseguras ou integrações que não respeitam as necessidades específicas do sistema.
O problema não está necessariamente no modelo de IA, mas na forma como seu código é utilizado. Um desenvolvedor que não entende segurança pode aceitar uma implementação aparentemente funcional sem perceber que ela cria uma superfície de ataque desnecessária.
3. Dependência excessiva da Inteligência Artificial
Existe também um risco menos visível: a perda de autonomia técnica. Se cada erro é resolvido perguntando novamente à IA, o desenvolvedor pode deixar de construir uma compreensão profunda da arquitetura, das linguagens e das ferramentas utilizadas.
A IA deveria ampliar a capacidade de um profissional, não substituir sua capacidade de raciocinar sobre o sistema. Saber perguntar para uma IA é útil. Saber avaliar se a resposta está correta é indispensável.
4. O efeito Frankenstein
Projetos construídos rapidamente por meio de sucessivas solicitações podem acumular soluções desconectadas. Um componente é criado para resolver um problema, outro é adicionado posteriormente, uma terceira parte é reescrita por outro modelo e, depois de dezenas de alterações, o sistema continua funcionando sem possuir uma arquitetura coerente.
Esse efeito pode transformar uma aplicação simples em um conjunto de soluções improvisadas. Quanto maior o projeto, maior a importância de arquitetura, padrões de projeto, documentação e revisão humana.
5. Alucinações também existem no código
Modelos de linguagem podem produzir APIs inexistentes, utilizar métodos incorretos, assumir comportamentos que uma biblioteca não possui ou combinar versões incompatíveis de dependências. Como o código pode parecer perfeitamente plausível, esses erros são especialmente perigosos para quem não possui conhecimento técnico suficiente para identificá-los.
Vibe Coding não é o problema
Seria um erro concluir que o Vibe Coding deve ser abandonado. A tecnologia oferece uma oportunidade enorme para prototipagem, aprendizagem e desenvolvimento de produtos. O problema surge quando velocidade é colocada acima de compreensão, segurança e qualidade.
O modelo mais seguro: IA como copiloto
Uma abordagem mais madura trata a Inteligência Artificial como uma camada de aceleração do desenvolvimento. O profissional define a arquitetura, estabelece requisitos, revisa as decisões técnicas, executa testes e utiliza a IA para implementar partes do trabalho com maior velocidade.
Nesse modelo, a IA pode escrever código, explicar funções, gerar testes, encontrar possíveis problemas, documentar componentes e sugerir alternativas. A decisão final, porém, continua pertencendo ao responsável pelo sistema.
Como utilizar Vibe Coding sem perder o controle
Projetos desenvolvidos com IA devem adotar algumas práticas básicas: revisar o código gerado, testar funcionalidades automaticamente, verificar dependências, utilizar controle de versão, separar ambientes de desenvolvimento e produção e realizar análises de segurança antes de disponibilizar a aplicação.
Também é importante fornecer contexto suficiente para a IA. Um prompt detalhado contendo arquitetura, restrições, padrões utilizados e critérios de aceitação tende a produzir resultados muito melhores do que uma sequência de pedidos genéricos para simplesmente 'consertar' o projeto.
A nova habilidade do desenvolvedor
A ascensão do Vibe Coding não significa necessariamente o fim da programação. Ela muda o que significa ser produtivo como programador. Se escrever código manualmente deixa de ser a principal barreira, outras competências ganham importância: arquitetura, análise crítica, segurança, testes, engenharia de software e capacidade de especificar problemas com precisão.
A visão da Neves Company
Na Neves Company, utilizamos Inteligência Artificial como ferramenta de desenvolvimento e aceleração, mas entendemos que sistemas reais precisam de engenharia por trás da interface. IA pode produzir código rapidamente; transformar esse código em software confiável exige arquitetura, validação, segurança e responsabilidade técnica.
O futuro do desenvolvimento provavelmente não será formado por programadores contra a Inteligência Artificial, mas por profissionais capazes de trabalhar com ela de maneira estratégica. O verdadeiro diferencial não será apenas conseguir gerar código. Será saber exatamente o que pedir, entender o que foi produzido e reconhecer quando a solução está errada.
Vibe Coding pode ser uma das maiores mudanças na história do desenvolvimento de software. Mas quanto mais fácil fica criar código, mais importante se torna saber engenharia de software.
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